Uma mulher de talento!

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Um dos primeiros filmes que assistimos na “disciplina” denominada de viagem educacional/cine-viagem – ou como eu gosto de chamar, viagem dimensional – foi “Erin Brockovich”. Este filme, baseado em fatos reais, conta a história de uma mulher solteira, mãe de três filhos e falida que, ao perder a causa para uma empresa grande após sofrer um acidente de carro, decide dar um rumo diferente à sua vida. Ao ser contratada para trabalhar no escritório pequeno do advogado que perdeu sua causa, Erin descobre que a água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e espalhando doenças entre seus habitantes. Destemida e bastante persistente, ela convence seu chefe a deixá-la investigar o assunto, conseguindo a confiança da população prejudicada por meio do fortalecimento do vínculo com essa comunidade, fazendo com que tenha em mãos um processo de 333 milhões de dólares.

Gosto de pensar nesse filme sob duas perspectivas: as relações de gênero e corporativismo capitalista. O filme, baseados em fatos reais, retrata a vida de Erin, uma mulher divorciada, solteira, com três filhos pequenos, sem formação profissional, falida, desempregada e subjugada pela sua aparência e pelo fato de ter sido miss que, graças a sua vivacidade, determinação e força, não só descobre que uma pequena comunidade havia sido vítima do corporativismo capitalista de uma empresa que contaminava a água local com Cromo Hexavalente e que a mesma estava tentando acobertar o caso, como convence a comunidade a lutar pelos seus direitos e consegue vencer uma causa que os de ternos da Wall Street consideravam perdida.

É extremamente interessante como o filme brinca com a ideia de induzir falsas ideias a respeito da personagem, caracterizadas no modo de se portar, de falar e se vestir com indumentos que, na nossa sociedade doente, machista e patriarcal, lhe dão o signo de fútil e vulgar. Pré-julgamentos bastante evidentes quando você assiste esse filme em coletivo e começa a prestar a atenção nas reações demonstradas ao longo da dramaturgia. O fundo feminista que permeia o filme, apesar de sutil, é capaz de estimular no telespectador o sentimento de inquietação e de, se fazer perceber que, para a nossa sociedade machista, nós, mulheres, somos avaliadas pela nossa aparência e não pela nossa capacidade. Posteriormente, quando fui pesquisar a vida da verdadeira Erin, descobri que, além de todos os enfrentamentos que ela teve que vivenciar e que, em sua maioria, envolvia questões de gênero, Erin também sofria com dislexia.

Partindo agora para a segunda linha de análise do filme, temos uma crítica ferrenha ao capitalismo e o corporativismo das grandes empresas que são capazes de tudo para manter sua margem de lucro, inclusive se omitir e falsificar dados para se livrar de um processo em que sabem, sem sobra de dúvidas, que são culpados. Perspectiva essa que me faz pensar nas grandes indústrias farmacêuticas que, maquiam seus testes farmacêuticos ilegais nos povoados pobres africanos com a ideia de empatia e solidariedade (Sugiro aqui assistir também o filme “O Jardineiro Fiel”).

Outro aspecto importante mostrado no filme, agora no que emprega a atuação dos profissionais de saúde nas Estratégias Saúde da Família, está na importância de se inserir no território e vivenciar essa inserção por meio do fortalecimento de vínculos com a comunidade. Isto porque, é bastante evidente que Erin só conseguiu a adesão da comunidade para investigar e processar a empresa que estavam os envenenando, quando demonstrou empatia e ofereceu acolhimento e escuta sensível aos prejudicados. E, aqui, enquanto residente dentro de uma ESF, posso afirmar o quanto é importante o vínculo com a comunidade para a adesão as ações e serviços de saúde ofertados na unidade de saúde.

Por fim, em meio a tantas características fortes que diferenciava Erin dos demais, a arte de saber ouvir o que o outro tem para dizer e saber enxergar aquilo que o outro não quer falar eram as que mais se evidenciavam.

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Erin Brockovich. Direção: Steven Soderbergh, Produção: Danny Devito; Stacey Sher; Michael Shamberg; Gail Lyon; Jhon Hardy, Estados Unidos: Universal Pictures, 2000.
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